Bem-vindo
O Espaço Cucas é um lugar de sonhos! Os brinquedos têm vida, porque são feitos de madeira, lã ou algodão, e os livros transformam-te num verdadeiro herói!
0

Espaço Cucas no Notícias da Manhã

Escrito por cucas em 1 Maio, 2009

Gatinhar não tem idade

Por Mafalda Ribeiro in Notícias da Manhã

- Porque é que não pões os pés no chão?

- Porque é que as tuas unhas crescem e tu não?

- Porque é que és tão pequenina e tens um telemóvel?

- Porque é que não podes ir para a rua brincar comigo?

- Porque é que não podes andar?

Estou habituada a estes e outros porquês dos que são mais novos (já que não são necessariamente mais pequenos do que eu…) afinal eles estão na idade dos “porquês” e eu sou a cobaia ideal. Porquês que não devem ter respostas rebuscadas mas que merecem a mesma genuinidade que é usada pelos miúdos quando interrogam. É a curiosidade pura de quem estranha mas em segundos logo entranha. É o que normalmente acontece comigo quando estou no meio dos traquinas de palmo e meio.

Numa destas tardes domingueiras estive na inauguração do “Espaço Cucas”, na cidade de Arruda dos Vinhos – www.espaco-cucas.com. Esta é uma loja especial, essencialmente de brinquedos didácticos, feitos de matérias-primas como a madeira e a lã, e que também dispõe de uma pequena livraria pedagógica. Um espaço diferente, para melhor, que pretende despertar consciências e trazer novas oportunidades de envolvência familiar, pois através destas brincadeiras a criança desenvolve as suas competências pessoais e sociais. Um local onde as crianças têm espaço para serem só crianças e os adultos têm tempo para voltarem a ser crianças.

Eu recuei no tempo e naquele Espaço (Cucas) misturei-me com elas sem pudor dos olhares curiosos e dos porquês indiscretos. Disponibilizei-me a trocar o “alto” da minha cadeira de rodas pelo “baixo” dos bancos coloridos a poucos centímetros do chão. Enquanto uns davam a cara às pinturas faciais outros usavam as mãos para montar figuras de madeira e pintá-las de feltro a seguir. Deixei-me ficar numa mini mesa redonda a pintar com crianças que já podiam ser meus filhos; sentada nos tais banquinhos que faziam com que finalmente os meus pés chegassem ao chão. Acho que eles gostaram de me ter ali. Pouparam-se aos porquês e transformaram os pontos de interrogação em pedidos sorridentes: «passas-me o amarelo? Quando acabares o teu golfinho emprestas-me a caneta azul?»

No “Espaço Cucas” há lugar para todos e para todos há a preocupação da adaptabilidade dos brinquedos e brincadeiras às suas necessidades especiais. Em dia de festa, misturado nas gargalhadas sonoras das crianças presentes estava um menino surdo. E quando foi a hora do conto a história teve voz e teve mãos e ele não perdeu um único detalhe. Para os outros meninos aquela dupla de contadoras de histórias ainda teve mais graça em expressão e criatividade. Não ouvi nenhum miúdo ouvinte perguntar porque é que a Paula Teixeira fazia caretas e gesticulava enquanto a Fernanda Freitas contavas aventuras fictícias do “senhor que depois de descobrir o prazer da leitura era muito mais feliz”. Assim como também não ouvi nenhum miúdo que podia correr e saltar perguntar porque é que andava por ali há horas um rapazinho em idade escolar a gatinhar sem medo de ser pisado e com uma vontade imensa de brincar. Ali todos eram crianças sem preconceitos. Até eu era; e apeteceu-me gatinhar também…

Tive saudades dos anos em que com umas calças de napa para não esfolar os joelhos e não me magoar “corria” o pátio dos avós, a casa dos pais e a escola de palmas das mãos no chão. Quando existe a liberdade de se conseguir ser eternamente criança, por um minuto que seja, não é preciso ser-se portador de deficiência motora para gatinhar. Todos nós já o fizemos um dia e secretamente temos vontade de o voltar a fazer. É que talvez, não havendo uma idade específica para fazer perguntas, acredito que também não haverá para gatinhar.

MAFALDA RIBEIRO

Relacionados

Deixe-nos o seu comentário